Metodologias ativas no ensino de Geografia

Ainda que as metodologias ativas possam ter grande importância para todo o conjunto de disciplinas escolares, importa refletir sobre seu significado específico em relação à Geografia. A Geografia Escolar tem uma origem eminentemente descritiva e fragmentária, estabelecendo no processo de ensino uma expressão enciclopedista. Desde pelo menos o final da década de 1960 vem sendo travados uma série de debates críticos a esse respeito, o que de modo geral tem contribuído para uma certa renovação da Geografia numa perspectiva crítica.

Entretanto, no que diz respeito ao cotidiano escolar, devemos questionar até que ponto a Geografia ensinada hoje se diferencia da Geografia ensinada há décadas atrás, sobretudo em termos de metodologia.Os conteúdos curriculares desta disciplina por vezes são distantes da realidade dos educandos, exigindo níveis consideráveis de abstração. Por outro lado, há elementos fundamentais para compreender o mundo atual que podem ser desenvolvidos a partir de conceitos trabalhados em Geografia. Nesse sentido, as metodologias ativas podem assumir um papel fundamental. De acordo com Berbel (2011, P. 25), “é recorrente entre, os estudiosos de Educação das últimas décadas, a ideia de que já não bastam informações para que crianças, jovens e adultos possam, com a contribuição da escola, participar de modo integrado e efetivo da vida em sociedade”.

Observa-se, portanto, a necessidade de promover situações didáticas que permitam construir os conceitos geográficos junto com os estudantes, em vez de apresentá-los prontos, devendo apenas ser memorizados. Trata-se de inverter a maneira clássica de ensinar Geografia: ao invés de começar pela definição acabada dos conceitos, estabelecer problematizações sobre casos concretos, sobre a própria realidade, na tentativa de recriar em diferentes formas e condições os movimentos pelos quais autores consagrados chegaram a formular suas ideias centrais.

A Geografia é conhecida como uma disciplina generalista e nisso residem tanto seus pontos fracos como seus pontos fortes. Por um lado, esse viés do conhecimento geográfico facilita a tendência ao conteudismo em detrimento da construção conceitual. Contudo, o caráter “generalista” da Geografia pode ser aproveitado numa perspectiva de totalidade, contribuindo para a análise da realidade a partir das ferramentas próprias da disciplina: espaço, território, região, paisagem, lugar, redes. Uma das maiores contribuições a esse respeito pode ser encontrada em Moreira (2013). A Geografia, aliada à utilização de metodologias ativas, tem grande potencial de inserir-se no contexto da formação integral, todavia esse processo deve ser pensado tendo em vista os sérios limites impostos pelos contextos escolares, sobretudo frente ao grave quadro estrutural das redes públicas de educação em geral.

geografia mafalda
REFERÊNCIAS

BERBEL, N. A. N. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011.

MOREIRA, Ruy. Conceitos, Categorias e Princípios Lógicos Para o Método e o Ensino de Geografia. IN: Pensar e Ser em Geografia. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2013.

“Milagres” estatísticos na educação do RJ

O debate sobre Educação no Brasil vem se tornando escravo de números, estatísticas, rankings, índices. Nesse contexto o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – ganha papel de destaque. Este indicador foi criado em 2007 e  é calculado com base em dados sobre aprovação escolar e resultados em testes padronizados, como o Prova Brasil. A partir desses cálculos giram as preocupações governamentais em todas as esferas. Mas até que ponto o IDEB é capaz de refletir a realidade?

No RJ, o economista Wilson Risolia, que responde pela Secretaria de Estado de Educação, alardeia o salto dado pela rede fluminense no ranking nacional do IDEB, saindo de 26º em 2010 para 4º em 2014. Aparentemente, seria uma mudança radical. Quem recebe esta notícia sem conhecer a realidade do ensino público no RJ pode até ficar deslumbrado. Risolia cai nas graças do mundo empresarial: é o novo queridinho da mídia, apresentado como tecnocrata competente.

Contudo, para quem vive o cotidiano da educação na ponta como eu, que sou professor da rede estadual, trabalhei em três escolas do estado nos últimos dois anos e visitei dezenas de unidades para conversar com os profissionais, sinceramente, o que se vê melhorar é a capacidade do secretário em manipular os números e varrer os problemas para debaixo do tapete.

O Programa Autonomia, por exemplo, aplicado em parceria com a Fundação Roberto Marinho, retira alunos que não se enquadram na dinâmica das turmas regulares e os coloca para assistir TV com apenas um professor que fica responsável por todas as disciplinas. Portanto, o produto final, ou seja, as notas mais altas, esconde o processo que está por trás. Uma análise semelhante pode ser feita em relação à remuneração variável. Como os professores são mal remunerados e sabem que as bonificações dependem dos resultados, cria-se uma espécie de aprovação automática disfarçada.

Fala-se até mesmo em casos de divulgação de gabaritos antes nas provas externas. Ouvi relatos de que alunos considerados “fracos” são estimulados a faltar nos exames padronizados. Isto é, a meritocracia na educação combina com a fraude. Não sou o único que pensa assim. Leiam por exemplo o artigo de Mateus Prado, que não é nenhum sindicalista. E fica a pergunta: será que não é isso mesmo que querem os ditos gestores? Bater metas, aumentar índices, não importando como.