Ideologia e Didática no ensino de Geografia

Em seu clássico intitulado “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra” Lacoste (1989) postula a existência de duas geografias, por assim dizer: uma Geografia dos Estados-maiores e uma Geografia dos professores. De acordo com o autor, a primeira teria origem antiga, enquanto saber sincrético percebido estrategicamente e aproveitado como instrumento de poder por minorias dirigentes. Já a segunda seria mais recente, surgida aproximadamente há um século, tornando-se um discurso ideológico que acaba por mascarar sua utilidade prática na conduta da guerra ou na organização do Estado.

Nesse sentido, seria impossível desvincular ideologia e didática. Mais interligadas do que possam parecer a primeira vista, essas duas questões centrais no ensino de Geografia adquirem uma íntima relação. No caso da chamada Geografia Tradicional, a apresentação da disciplina a partir do esquema Natureza – Homem – Economia (MOREIRA, 2006) é fundamental para estabelecer um modelo de explicação da realidade que afaste do seu campo de ação as contradições políticas e econômicas presentes na sociedade e no espaço.  A natureza é concebida como receptáculo para o homem demográfico – sem classes – e as atividades econômicas são encaradas sob um viés descritivo, a partir de inúmeras informações pouco ou nada relacionadas entre si.

Deste modo, o desafio hoje colocado aos professores de Geografia que buscam inserir-se numa perspectiva crítica passa justamente pelo questionamento a respeito conciliação entre novos conteúdos e velhos métodos. Devemos refletir sobre até que ponto a Geografia Tradicional foi ou não superada. Em diversos aspectos, ao contrário do que se tende a convencionar, ela parece muito presente. O currículo escolar de Geografia é hoje, sem dúvida, diferente de 40 anos atrás, bem como os livros didáticos e outros materiais pedagógicos. Mas e sua lógica de organização e a didática e ela subjacente: será que mudaram tanto? Esta questão vai muito além das opções individuais de cada docente e das especificidades da Geografia, envolvendo, na verdade, um conjunto de debates sobre a autonomia pedagógica, o processo de formação de professores, enfim, o próprio papel social da educação.

REFERÊNCIAS

LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2 ed. Campinas, SP: Papirus, 1989.

MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006.

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Só não se informa quem não quer?

A afirmação de que “hoje observa-se a desterritorialização do saber, ou seja, aprende-se não apenas na sala de aula mas também em casa, ou em qualquer lugar onde se possa ter acesso à informação” merece uma apreciação crítica. Em primeiro lugar, o fenômeno da aprendizagem para além da sala de aula não é exatamente uma novidade. Pelo contrário, o movimento que promove a academia e a escola como detentores do monopólio legítimo do conhecimento é, esse sim, algo recente. Entretanto, a tentativa de utilizar tal discurso para justificar a precarização da Educação assume na prática um caráter profundamente conservador, por mais que pretenda se apresentar com ares modernizantes… Em segundo lugar, importa questionar uma ideologia muito apregoada atualmente que postula uma certa democratização da informação, da aprendizagem e do conhecimento. Se é verdade que de forma geral o acesso a esses três elementos é mais fácil (ou menos difícil) hoje que em meados do século passado, importa chamar atenção para o fato de que, para a maioria da população, esse acesso, ou melhor, esta dificuldade de acesso é determinada muito mais por questões derivadas da desigualdade social do que pelo grau de desenvolvimento tecnológico vigente. Em outras palavras, apesar das rupturas realizadas entre o passado e o presente, existe uma linha de continuidade ligando as diversas sociedades historicamente divididas em classes nas suas relações com a difusão de informação: tanto hoje como há centenas de anos, a informação é acessada de forma extremamente desigual, de modo que uma minoria adquire posições privilegiadas enquanto a maior parte das pessoas é alijada do banquete técnico-científico-informacional. Na verdade, alijamento não seria o termo mais preciso porque trata-se, com efeito, de uma inclusão subalterna via processos de massa. Na era dos monopólios, a informação converte-se em mais uma dentre outras mercadorias controladas por um punhado de agências em todo o mundo. Ou seja, o cerne da contradição na chamada “sociedade do conhecimento” está em seus próprios processos de produção da informação, sendo sua distribuição assimétrica a expressão desse condicionante.

Escola – na “época dos militares” que era bom?

A atual geração de estudantes demanda grande dinamismo no processo de ensino/ aprendizagem. “Toda aprendizagem, em todos os tempos é mediada pelas tecnologias disponíveis” (KENSKY, 2003, P. 3), contudo é importante considerar que o altíssimo grau de desenvolvimento tecnológico do mundo de hoje vai além de uma mera evolução linear. Embora não representem uma ruptura estrutural em termos de modo de produção, as transformações que vem se desenvolvendo desde, pelo menos, o último quartel do século XX não podem ser subestimadas. De acordo com Harvey (2003, P. 7), “vem ocorrendo uma mudança abissal nas práticas culturais, bem como político-econômicas, desde mais ou menos 1972. Essa mudança abissal está vinculada à emergência de novas maneiras dominantes pelas quais experimentamos o tempo e o espaço”. Nesse sentido, trata-se de um salto de qualidade fundamental com implicações decisivas no contexto escolar. Ainda que na sociedade capitalista o acesso às novas tecnologias seja bastante desigual, o recente ciclo brasileiro de inserção social pela ótica do consumo ocasiona algumas consequências praticamente generalizadas, sobretudo no que diz respeito ao contexto urbano.

Portanto, envolver os alunos do século XXI nas aulas é, sem dúvida, um desafio maior do que há algumas décadas. Além do fato de a geração atual ser formada em uma realidade mais veloz, no auge do capitalismo monopolista, o próprio regime político vigente no país produz influências na configuração da juventude. O Brasil vive, desde 1989, um processo de redemocratização o qual, ainda que questionável, carrega consigo certas mudanças conceituais para a escola. Frente a essa questão, há aqueles que reproduzem um senso comum de posições conservadoras e até mesmo reacionárias, reivindicando a volta da ditadura empresarial militar, porque “naquela época havia ordem”. Professores experientes e, espantosamente, um conjunto de iniciantes na carreira sentem saudades da época em que havia punições mais rígidas contra a “indisciplina”. Os alunos levantavam-se quando o professor entrava em sala, cantava-se o hino nacional, marchava-se em filas, o uniforme era impecável… é curioso como alguns colegas sentem falta de um período que sequer viveram.

Entretanto, avaliamos como profundamente equivocadas tais tendências. Não defendemos que a educação seja isenta de regras, disciplina, respeito, etc. Ao contrário, acreditamos que estes elementos devam ser trabalhados em mão dupla. Se os estudantes não mais se submetem calados a humilhações, estamos diante de um avanço em face do qual não cabem lamentos saudosistas. O desafio educacional agora reside em como atrair os estudantes, em vez de impor o conhecimento; como sustentar a autoridade pelo exemplo, mais que pelo cargo; como aproveitar didaticamente os questionamentos, em vez de reprimí-los. Assim sendo, não há uma fórmula metodológica capaz de resolver todos os problemas. O professor demandado pelo mundo atual precisa ter formação suficiente para saber lançar mão de técnicas diversas, agindo com base nas especificidades de cada situação pedagógica.

Porém, não se deve ter a ilusão de que isso se dê em um quadro de neutralidade: ou se constrói a prática docente no sentido da transformação social ou adota-se o sentido de naturalização e justificativa da realidade. Na primeira hipótese, os conflitos escolares podem ser encarados sob uma perspectiva educativa. Já na segunda, busca-se uma paz de cemitério, cada vez mais improvável no atual cenário. Todavia, seria ingenuidade pensar que tudo depende de opções individuais ou do grau de heroísmo dos profissionais, cada um por si. Uma educação popular, de caráter crítico, exige justamente que superemos o isolamento para lutar por outra educação não só possível como necessária. Por fim, mas não menos importante, é insuficiente vislumbrar alternativas sem considerar os elementos mais básicos: valorização profissional, condições de trabalho, desmercantilização da educação.

REFERÊNCIAS

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. 12 ed. São Paulo: Loyola, 2003.

KENSKY, Vani M. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n.10, p.47-56, set./dez. 2003.