Eduardo de Jesus: vítima da perversidade do Estado, da hipocrisia das classes dominantes e da comoção seletiva

Se agentes do Estado assassinassem uma criança de dez anos, classe média, na zona sul do Rio de Janeiro, o secretário de segurança seria exonerado em menos de 24h e até o governador poderia ser derrubado; a imprensa faria reportagens enormes e o assunto iria ao ar por vários dias seguidos; os pais do menino seriam entrevistados ao vivo em todos os principais jornais, o enterro teria cobertura jornalística especial.
Eduardo de Jesus Ferreira, contudo, era filho de pedreiro e empregada doméstica; aluno de escola pública, morador do Complexo do Alemão… então é tratado como “mais um”. Nenhum governante vai ao seu velório. Seus vizinhos tentam fazer um protesto, expressando a indignação, exigindo justiça, o direito de viver em paz… mas, não fosse suficiente a dor já instalada, recebem bombas de efeito moral como resposta.
Por fim, seus pais, não bastasse a profunda ferida recém aberta, ainda tem que se deparar com versões afirmando que o menino era bandido, “um vagabundo”. Fotos de crianças armadas são publicadas nas redes sociais, tentando fazer crer que se tratava de Eduardo. Como ocorre com todos aqueles que são executados em favelas, muitas pessoas partem do pressuposto de que a culpa foi da própria vítima, de que era um traficante, de que estava armado, etc.
Situações como esta se repetem, reafirmando a barbárie que faz parte da “nossa” civilização. No momento, não consigo nem quero fazer nenhuma reflexão sobre como a estrutura social e econômica engendra tal lógica. Essa tarefa fica para outra hora. Agora só quero expressar minha indignação contra toda covardia e ignorância responsáveis direta ou indiretamente pela destruição de tantas vidas.

2015-04-03 17.02.21

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