A quem a Seeduc acha que engana?

a neto

Há mais de uma década no Palácio Guanabara, o PMDB consolidou no Rio de Janeiro um modelo de “governo balcão” (de negócios). Na gestão Pezão, quarta consecutiva do partido, essa lógica chega no auge: serviços públicos básicos são simplesmente interrompidos para garantir as regalias de grandes empresas. O compromisso do governo com seus patrocinadores eleitorais é rigorosamente garantido, mesmo que isso inviabilize o orçamento necessário ao funcionamento de unidades de saúde, universidades, bibliotecas, escolas. Até parcelamento salarial para os servidores Pezão foi capaz de implementar. Tudo para manter a lucratividade da Ambev, Supervia, Light, etc.

Entretanto, os fiéis fantoches da burguesia, que dirigem a máquina do Estado cada vez mais explicitamente a serviço do capital, não contavam que os trabalhadores e os estudantes se levantassem num dos maiores processos de luta no RJ desde 2013. Desde o final do ano passado, várias categorias do funcionalismo já tentavam se articular para uma greve geral. Um bloco de burocracias sindicais se organizou “pelo alto” e decidiu que era preciso esperar até abril. Contudo, a realidade foi mais rápida: no dia 20/02, cerca de 1000 trabalhadores da rede estadual de educação aprovaram greve a partir do mês seguinte, deliberação acompanhada nas assembleias dos professores da rede Faetec, docentes e técnico-administrativos da UERJ.

Desde então, ampliaram-se as manifestações estudantis. Os secundaristas vem realizando, desde a segunda metade de fevereiro, uma série de atos como há muito tempo não se via. Campos, Macaé, Niterói, Rio, Magé, Caxias, Nova Friburgo… em todo o estado os estudantes estão tomando as ruas, exigindo melhores condições de estudo e apoiando as reivindicações de seus professores em greve. 02/03 foi um capítulo emblemático desta união: após uma assembleia com cerca de 3000 pessoas na Fundição Progresso, os profissionais da educação saíram em marcha. Na Cinelândia, uma massa de estudantes se somou à coluna, que se dirigiu à ALERJ mais que dobrando a quantidade de presentes no ato unificado com outras categorias do serviço público estadual.

Preocupada com a dimensão dos protestos, a SEEDUC saca suas armas e, no mesmo dia, publica uma nota deplorável. Primeiro, manipula grosseiramente o percentual de adesão da categoria à greve, excluindo da contagem os que não foram à assembleia e os que não trabalham na rede às quartas feiras; segundo, caracteriza a greve como elemento prejudicial aos alunos, quando na verdade o movimento conta com apoio de estudantes e responsáveis – que se percebem prejudicados, isto sim, pelos ataques do governo contra a educação e os serviços públicos em geral; terceiro, busca justificar a alteração no calendário de pagamento, o parcelamento do 13º e a contrarreforma da previdência alardeando a “queda na arrecadação de receitas”, embora não esclareça por que não há crise no que tange aos benefícios e pagamentos destinados a empreiteiras, bancos, cervejarias, montadoras, etc.

Dois dias depois, Antonio Neto anuncia que vai enviar ofício ao Ministério Público e Conselho Tutelar, a pretexto de proteger os estudantes no que diz respeito a sua participação em atos de rua. A mesma Secretaria que, além de não realizar concursos públicos para o cargo de porteiro, demitiu os funcionários terceirizados e deixou as escolas expostas, agora alega questões de segurança para de fato restringir o direito de auto-organização estudantil e livre manifestação política. Se os tecnocratas de plantão tivessem para atender as justas reivindicações dos trabalhadores e estudantes a mesma iniciativa que apresentam para atacar a mobilização, a educação poderia estar em outra situação.

Secretário, não adianta distorcer os fatos, recorrer ao MP, colocar vídeo na internet. Esta é a maior greve dos últimos tempos, é de massas, unindo profissionais da educação, estudantes e comunidades escolares em geral. Avise ao seu chefe que o movimento está só começando e não aceitaremos a reestruturação capitalista do Estado, a privatização e a destruição dos serviço públicos!

Ser professor e defender a redução da maioridade penal é uma contradição pedagógica

Embora não seja a solução para todos os problemas, como querem fazer crer os interessados em ocultar a estrutura econômica da sociedade, a educação é de fato um dos fatores decisivos para o futuro da juventude. Professor@ que defende a redução da maioridade penal está, na minha opinião, desvalorizando o seu próprio papel profissional para enaltecer o papel do sistema prisional.
É curioso: por outro lado, de cada 10 professores que você perguntar, pelo menos 9 vão dizer que o encarceramento não recupera ninguém (pelo contrário). “Ahh mas as quadrilhas utilizam menores de 18 anos para cometer crimes…”. Estamos reivindicando que isso agora aconteça com os menores de 16, é isso?! Depois reduzimos para 14, 12… 4?
Comecei dizendo que a educação sozinha não é a fórmula mágica para todos os males. Mas não adianta entender isso para cair em outro equívoco, mais perigoso: a ideia de que a chave está nas prisões! A ilusão de que a polícia é quem tem as soluções.
Infelizmente muitos colegas não percebem.
Quando o governador disser de forma mais explícita que vai reduzir os investimentos da secretaria educação para sobrar mais dinheiro com destino aos presídios, não poderão reclamar. Aliás, no plano federal, sabem qual foi um dos ministérios mais atingidos pelos cortes de verbas do famigerado “ajuste fiscal”?

Aula carioca

* Esta crônica é a segunda versão, modificada, de um texto originalmente publicado pelo autor em novembro de 2010. Baseado em fatos reais.

Numa noite quente, em um colégio estadual da zona norte carioca, um inexperiente professor de geografia tenta motivar sua turma de 2º ano do Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA) para que façam exercícios sobre a Globalização. Ele explica as questões, anota algumas palavras no quadro e depois começa a andar lentamente pela sala, calado. Ouvem-se cochichos, algumas risadas, o barulho do ventilador cansado e outros ruídos variados.
Alguns estudantes chamam o jovem docente para fazer perguntas e pedir ajuda no trabalho, mas não muitos. Outros resmungam frases indiscerníveis. Outros ainda conversam em alto e bom som sobre temas diversos, dentre os quais não se incluem os temas da disciplina. Essa dinâmica se desenrola por mais ou menos vinte minutos até que, de súbito, o professor se aproxima de um grupo de adolescentes sentados ao fundo da sala de aula e interrompe sua prosa questionando:
– Por que vocês não estão fazendo o trabalho?!
Um deles, que aparenta ser mais comunicativo, replica:
– Pô professor, qual foi?! Tamo aqui na moral… pô, sacoé, esse trabalho aí é chatão, difição e nem vale ponto! Deixa a gente trocando nossa ideia aqui, suave, a gente vai falar mais baixo.
Os outros apoiam a fala do colega:
– Saparada mermo… tá ligado…
O professor insiste:
– Esse trabalho é importante…
O rapaz nem deixa o professor terminar:
– Fessô, com todo respeito, papo de sujeito homem: tu ganha quanto por mês?!
Constrangido, o professor responde:
– Mil e poucos…
O rapaz exclama em tom de desdém:
– Fala sério, essa merreca aí eu tiro numa semana, trabalhando pro “movimento”!
O professor não demonstra estar surpreso. Convencido de que usa um argumento eloquente, retruca:
– Mas você sabe que nessa vida, com esse tipo de atividade, é quase certo morrer jovem, no máximo 23, 25 anos… de que adianta?! O tráfico é muito arriscado, as pessoas não vivem muito tempo.
O rapaz não se comove nem um pouco com a advertência e explica, bem a seu modo:
– Ihhh qual foi, mó papo torto! Minha mãe trabalhou a vida toda, ganhando salário mínimo, tá aí óh, tem porra nenhuma! Pára de caozada! Que que adianta?! Tá velha, pode nem descansar, tem que descer o morro direto pra limpar banheiro de madame, aguentar os bacana lá olhando pra ela que nem ela fosse bicho.
O professor tenta interromper:
– Eu entendo…
Mas o aluno se exalta mais, elevando o tom da voz:
– Entende é de geografia véi! Quer que eu siga conselho furado pra virar fudido que nem você?! E meu padastro?! Num se envolve com bagulho “errado”: adianta o que?! Caraca, o coroa sempre ficou correndo atrás de biscate na pista, ralando pacaralho, trabalhando em obra! Pra depois num ter porra nenhuma! Aí tinha problema do coração, quando passava mal ficava se fudendo em fila do hospital aí! Morreu nessa porra… na moral, tu acha que eu vou querer ficar velho pra isso?! Se eu morrer novo que se foda, pelo menos vou ter curtido a vida em vez de ficar velho pra sofrer que nem otário!
Totalmente desconcertado e sem saber o que dizer a essa altura, o professor apenas ergueu a mão esquerda, aberta à meia altura, como que suplicando o fim da discussão. Em seguida, viu-se tomado de uma enorme sensação de impotência. Ao mesmo tempo, sabia que aula tinha que continuar. Pensou em punir o aluno pelas palavras, levando-o para a secretaria. Mas logo mudou de ideia e voltou a caminhar em direção à lousa, de cabeça baixa e olhando para o relógio.

Educação pública no RJ: das metas aos mitos

Desde fins de 2010 à frente da Secretaria de Estado de Educação do RJ (SEEDUC), o economista Wilson Risolia promoveu um conjunto de ações polêmicas no bojo do que apresentou como planejamento estratégico. Foram medidas que diziam respeito a vários aspectos, tais como a remuneração dos profissionais, os processos de avaliação, “atualização” de professores, seleção para cargos de confiança, currículo mínimo, etc.

Obcecado pela ideia de elevar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) fluminense, o secretário, com o auxílio de um séquito crescente e fenomenal aparato burocrático, atuou firmemente no sentido de consolidar sua ideologia no modus operandi “pedagógico” do estado, em estreita vinculação com o projeto educacional do Banco Mundial – largamente difundido também na rede municipal carioca, além do estado de SP, nos EEUU, Chile e onde mais os governantes cumprem a cartilha em questão, lançando mão do velho expediente de apresentar interesses particulares como se fossem universais.

Para tanto, tanto as equipes do famigerado governador Sérgio Cabral na SEEDUC (depois sucedido por Pezão) quanto do prefeito Eduardo Paes na SME agiram de modo a camuflar suas estratégias enviesadas sob uma roupagem aparentemente neutra, técnica, encoberta por estatísticas, resultados, etc. Só a partir deste contexto é possível entender como estão sendo criados diversos mitos (e metas) no âmbito da educação pública do Rio de Janeiro, mitos estes incorporados ingenuamente e bastante reproduzidos por significativas parcelas dentre suas próprias vítimas: os trabalhadores da educação, sobretudos alguns milhares de professores e professoras.

À primeira vista, o eminente planejamento estratégico do PMDB para a educação visa estabelecer profundas melhorias no setor. Todavia, é preciso examinar as ações em destaque um pouco mais de perto… vejamos, por exemplo, o caso da política de bonificação por resultados. Segundo a SEEDUC, “o sistema de bonificação vai recompensar os servidores da educação por bons resultados e trabalho em equipe”. Consiste em uma “remuneração variável, de acordo com o desempenho da unidade escolar”.

Trata-se de uma política muito simpática, dialogando demagogicamente com o senso comum e acionando um raciocínio extremamente sedutor: não é justo que os profissionais mais aplicados ganhem a mesma coisa em relação aos menos aplicados. Sem entrar no mérito desse argumento, isto é, independentemente de ele ser ou não correto, há um imenso abismo entre intenção e gesto. Ou seja, os tais indicadores a partir dos quais se pretende mensurar o “desempenho escolar”, nem de longe retratam o comprometimento, o esforço ou, simplesmente, a quantidade de trabalho dos profissionais da educação.

Por dois motivos, pelo menos. Primeiro, porque, em educação, o comprometimento dos servidores não deve ser confundido com a adesão subserviente e irrefletida à concepção pedagógica do governo da ocasião. Segundo, porque é notório que a rede estadual é coalhada de desigualdades internas, isto é, as escolas estão situadas em comunidades mais ou menos empobrecidas, com diferentes níveis de acesso à cultura, diversos graus de violência, degeneração humana, históricos e condições de vida em geral.

Em vez de respeitar a pluralidade metodológica e fomentar o debate filosófico-político-pedagógico, condições indispensáveis à formação para a consciência crítica, o PMDB impõe o pensamento único mediante chantagens pecuniárias e propaganda ideológica na imprensa, uma grande aliada sua nesta disputa; oferece “bônus” somente a quem cumprir suas exigências, atendendo exclusivamente à sua visão sobre qualidade de ensino. Ademais, no lugar de promover o aprofundamento sobre as vidas concretas dos diferentes alunos, o mergulho na realidade das comunidades escolares, o conhecimento das distintas situações para entender suas demandas, seus limites, suas possibilidades e, a partir daí, estabelecer práticas mais profícuas e dotadas de sentido específico, os ditos “gestores” vêem a educação através de números, aplicando procedimentos padronizados, com véu asséptico, à revelia das necessidades sociais e estruturais das escolas.

A cartilha oficial que versa sobre esse tema afirma dentre seus objetivos “estimular a produtividade”. O que é produtividade na escola?! Política educacional séria não se baseia em supostos milagres estatísticos, de um dia para o outro. Isso é um insulto à nossa inteligência, cinismo deslavado, vendido como técnico e imparcial! Os países que hoje se destacam em termos de educação pública são aqueles que têm propostas autônomas e de longo prazo, de acordo com suas realidades, justamente os que não se dobram às chantagens financeiras impostas pelo Banco Mundial, com supostas receitas mágicas. Vejam os exemplos de Cuba, Venezuela e Bolívia, as conquistas realizadas por esses povos no que tange à educação pública. Não há máscara ideológica capaz de resistir ao fato de que esses países são territórios livres do analfabetismo, como reconhece a própria Unesco.

Enquanto isso no Brasil, a subsunção da educação e do magistério ao capital cada vez mais deixa de ser meramente formal. Ou seja, se antes trabalhávamos com a lógica de que apesar das escolas serem formalmente subordinadas ao Estado burguês havia certa autonomia dentro das salas de aula, as movimentações políticas da atual conjuntura apontam em outra direção. O professor vem se tornando uma peça submetida a uma engrenagem de ensino sobre a qual não tem controle. Se em outros momentos históricos a atividade docente deveria servir-se do sistema educacional para se realizar, agora temos um sistema educacional estranhado, controlado por uma pequena cúpula que busca se servir dos professores para implementar seu projeto – bom para o mercado, péssimo para a classe trabalhadora.

A prefeitura do Rio orgulha-se de conceber a educação como uma linha de produção fabril, comparando os alunos a mercadorias. Sua visão “pedagógica” ficou ainda mais clara nesta publicidade divulgada recentemente.

* Este texto é a segunda edição de um artigo publicado originalmente em Novembro de 2012.

Ideologia e Didática no ensino de Geografia

Em seu clássico intitulado “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra” Lacoste (1989) postula a existência de duas geografias, por assim dizer: uma Geografia dos Estados-maiores e uma Geografia dos professores. De acordo com o autor, a primeira teria origem antiga, enquanto saber sincrético percebido estrategicamente e aproveitado como instrumento de poder por minorias dirigentes. Já a segunda seria mais recente, surgida aproximadamente há um século, tornando-se um discurso ideológico que acaba por mascarar sua utilidade prática na conduta da guerra ou na organização do Estado.

Nesse sentido, seria impossível desvincular ideologia e didática. Mais interligadas do que possam parecer a primeira vista, essas duas questões centrais no ensino de Geografia adquirem uma íntima relação. No caso da chamada Geografia Tradicional, a apresentação da disciplina a partir do esquema Natureza – Homem – Economia (MOREIRA, 2006) é fundamental para estabelecer um modelo de explicação da realidade que afaste do seu campo de ação as contradições políticas e econômicas presentes na sociedade e no espaço.  A natureza é concebida como receptáculo para o homem demográfico – sem classes – e as atividades econômicas são encaradas sob um viés descritivo, a partir de inúmeras informações pouco ou nada relacionadas entre si.

Deste modo, o desafio hoje colocado aos professores de Geografia que buscam inserir-se numa perspectiva crítica passa justamente pelo questionamento a respeito conciliação entre novos conteúdos e velhos métodos. Devemos refletir sobre até que ponto a Geografia Tradicional foi ou não superada. Em diversos aspectos, ao contrário do que se tende a convencionar, ela parece muito presente. O currículo escolar de Geografia é hoje, sem dúvida, diferente de 40 anos atrás, bem como os livros didáticos e outros materiais pedagógicos. Mas e sua lógica de organização e a didática e ela subjacente: será que mudaram tanto? Esta questão vai muito além das opções individuais de cada docente e das especificidades da Geografia, envolvendo, na verdade, um conjunto de debates sobre a autonomia pedagógica, o processo de formação de professores, enfim, o próprio papel social da educação.

REFERÊNCIAS

LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2 ed. Campinas, SP: Papirus, 1989.

MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006.

Só não se informa quem não quer?

A afirmação de que “hoje observa-se a desterritorialização do saber, ou seja, aprende-se não apenas na sala de aula mas também em casa, ou em qualquer lugar onde se possa ter acesso à informação” merece uma apreciação crítica. Em primeiro lugar, o fenômeno da aprendizagem para além da sala de aula não é exatamente uma novidade. Pelo contrário, o movimento que promove a academia e a escola como detentores do monopólio legítimo do conhecimento é, esse sim, algo recente. Entretanto, a tentativa de utilizar tal discurso para justificar a precarização da Educação assume na prática um caráter profundamente conservador, por mais que pretenda se apresentar com ares modernizantes… Em segundo lugar, importa questionar uma ideologia muito apregoada atualmente que postula uma certa democratização da informação, da aprendizagem e do conhecimento. Se é verdade que de forma geral o acesso a esses três elementos é mais fácil (ou menos difícil) hoje que em meados do século passado, importa chamar atenção para o fato de que, para a maioria da população, esse acesso, ou melhor, esta dificuldade de acesso é determinada muito mais por questões derivadas da desigualdade social do que pelo grau de desenvolvimento tecnológico vigente. Em outras palavras, apesar das rupturas realizadas entre o passado e o presente, existe uma linha de continuidade ligando as diversas sociedades historicamente divididas em classes nas suas relações com a difusão de informação: tanto hoje como há centenas de anos, a informação é acessada de forma extremamente desigual, de modo que uma minoria adquire posições privilegiadas enquanto a maior parte das pessoas é alijada do banquete técnico-científico-informacional. Na verdade, alijamento não seria o termo mais preciso porque trata-se, com efeito, de uma inclusão subalterna via processos de massa. Na era dos monopólios, a informação converte-se em mais uma dentre outras mercadorias controladas por um punhado de agências em todo o mundo. Ou seja, o cerne da contradição na chamada “sociedade do conhecimento” está em seus próprios processos de produção da informação, sendo sua distribuição assimétrica a expressão desse condicionante.

Escola – na “época dos militares” que era bom?

A atual geração de estudantes demanda grande dinamismo no processo de ensino/ aprendizagem. “Toda aprendizagem, em todos os tempos é mediada pelas tecnologias disponíveis” (KENSKY, 2003, P. 3), contudo é importante considerar que o altíssimo grau de desenvolvimento tecnológico do mundo de hoje vai além de uma mera evolução linear. Embora não representem uma ruptura estrutural em termos de modo de produção, as transformações que vem se desenvolvendo desde, pelo menos, o último quartel do século XX não podem ser subestimadas. De acordo com Harvey (2003, P. 7), “vem ocorrendo uma mudança abissal nas práticas culturais, bem como político-econômicas, desde mais ou menos 1972. Essa mudança abissal está vinculada à emergência de novas maneiras dominantes pelas quais experimentamos o tempo e o espaço”. Nesse sentido, trata-se de um salto de qualidade fundamental com implicações decisivas no contexto escolar. Ainda que na sociedade capitalista o acesso às novas tecnologias seja bastante desigual, o recente ciclo brasileiro de inserção social pela ótica do consumo ocasiona algumas consequências praticamente generalizadas, sobretudo no que diz respeito ao contexto urbano.

Portanto, envolver os alunos do século XXI nas aulas é, sem dúvida, um desafio maior do que há algumas décadas. Além do fato de a geração atual ser formada em uma realidade mais veloz, no auge do capitalismo monopolista, o próprio regime político vigente no país produz influências na configuração da juventude. O Brasil vive, desde 1989, um processo de redemocratização o qual, ainda que questionável, carrega consigo certas mudanças conceituais para a escola. Frente a essa questão, há aqueles que reproduzem um senso comum de posições conservadoras e até mesmo reacionárias, reivindicando a volta da ditadura empresarial militar, porque “naquela época havia ordem”. Professores experientes e, espantosamente, um conjunto de iniciantes na carreira sentem saudades da época em que havia punições mais rígidas contra a “indisciplina”. Os alunos levantavam-se quando o professor entrava em sala, cantava-se o hino nacional, marchava-se em filas, o uniforme era impecável… é curioso como alguns colegas sentem falta de um período que sequer viveram.

Entretanto, avaliamos como profundamente equivocadas tais tendências. Não defendemos que a educação seja isenta de regras, disciplina, respeito, etc. Ao contrário, acreditamos que estes elementos devam ser trabalhados em mão dupla. Se os estudantes não mais se submetem calados a humilhações, estamos diante de um avanço em face do qual não cabem lamentos saudosistas. O desafio educacional agora reside em como atrair os estudantes, em vez de impor o conhecimento; como sustentar a autoridade pelo exemplo, mais que pelo cargo; como aproveitar didaticamente os questionamentos, em vez de reprimí-los. Assim sendo, não há uma fórmula metodológica capaz de resolver todos os problemas. O professor demandado pelo mundo atual precisa ter formação suficiente para saber lançar mão de técnicas diversas, agindo com base nas especificidades de cada situação pedagógica.

Porém, não se deve ter a ilusão de que isso se dê em um quadro de neutralidade: ou se constrói a prática docente no sentido da transformação social ou adota-se o sentido de naturalização e justificativa da realidade. Na primeira hipótese, os conflitos escolares podem ser encarados sob uma perspectiva educativa. Já na segunda, busca-se uma paz de cemitério, cada vez mais improvável no atual cenário. Todavia, seria ingenuidade pensar que tudo depende de opções individuais ou do grau de heroísmo dos profissionais, cada um por si. Uma educação popular, de caráter crítico, exige justamente que superemos o isolamento para lutar por outra educação não só possível como necessária. Por fim, mas não menos importante, é insuficiente vislumbrar alternativas sem considerar os elementos mais básicos: valorização profissional, condições de trabalho, desmercantilização da educação.

REFERÊNCIAS

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. 12 ed. São Paulo: Loyola, 2003.

KENSKY, Vani M. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n.10, p.47-56, set./dez. 2003.