Só não se informa quem não quer?

A afirmação de que “hoje observa-se a desterritorialização do saber, ou seja, aprende-se não apenas na sala de aula mas também em casa, ou em qualquer lugar onde se possa ter acesso à informação” merece uma apreciação crítica. Em primeiro lugar, o fenômeno da aprendizagem para além da sala de aula não é exatamente uma novidade. Pelo contrário, o movimento que promove a academia e a escola como detentores do monopólio legítimo do conhecimento é, esse sim, algo recente. Entretanto, a tentativa de utilizar tal discurso para justificar a precarização da Educação assume na prática um caráter profundamente conservador, por mais que pretenda se apresentar com ares modernizantes… Em segundo lugar, importa questionar uma ideologia muito apregoada atualmente que postula uma certa democratização da informação, da aprendizagem e do conhecimento. Se é verdade que de forma geral o acesso a esses três elementos é mais fácil (ou menos difícil) hoje que em meados do século passado, importa chamar atenção para o fato de que, para a maioria da população, esse acesso, ou melhor, esta dificuldade de acesso é determinada muito mais por questões derivadas da desigualdade social do que pelo grau de desenvolvimento tecnológico vigente. Em outras palavras, apesar das rupturas realizadas entre o passado e o presente, existe uma linha de continuidade ligando as diversas sociedades historicamente divididas em classes nas suas relações com a difusão de informação: tanto hoje como há centenas de anos, a informação é acessada de forma extremamente desigual, de modo que uma minoria adquire posições privilegiadas enquanto a maior parte das pessoas é alijada do banquete técnico-científico-informacional. Na verdade, alijamento não seria o termo mais preciso porque trata-se, com efeito, de uma inclusão subalterna via processos de massa. Na era dos monopólios, a informação converte-se em mais uma dentre outras mercadorias controladas por um punhado de agências em todo o mundo. Ou seja, o cerne da contradição na chamada “sociedade do conhecimento” está em seus próprios processos de produção da informação, sendo sua distribuição assimétrica a expressão desse condicionante.