Em tempos de volume morto, Brasil aumenta exportação de água

Em sua edição de ontem, dia 13/12/2014, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem no mínimo curiosa acerca do volume de água utilizado para fabricar produtos assim chamados do dia a dia. Afirma a manchete que “além da água que usamos diretamente, inclusive para matar a sede, existe muito mais água por trás de tudo o que se consome”, sobretudo alimentos. Como é de costume na linha editorial da Rede Globo, a matéria dá ênfase à necessidade de cada um fazer sua parte individualmente, evitar o desperdício, etc. Sendo impossível ignorar o fato de que o consumo residencial direto não ultrapassa 30% do total, o JN alerta sobre a importância de adotamos o uso racional não só diminuindo o tempo dos banhos ou fechando a torneira enquanto escovamos os dentes, mas combatendo o desperdício de todos os produtos que escondem litros e mais litros de água em seus processos de produção.

Este epidérmico microativismo ambiental é extremamente hipócrita: para milhões de trabalhadores que sofrem diariamente com abastecimento irregular e/ ou improvisado de água nas periferias de São Paulo, na baixada fluminense ou no sertão nordestino é uma ofensa que lhes seja exigido economizar o que já lhes falta! Que sentido faz apregoar o “consumo consciente” para quem só come bife duas vezes a cada sete dias, considerando que neste mesmo intervalo de tempo a caixa d’água só enche uma vez?! Além disso, o viés em tela oculta determinações mais estruturais do problema –  e não é novidade ser este mesmo o papel ideológico assumido pelo conglomerado das comunicações da família Marinho, bem como da imprensa corporativa lato sensu.

Na região hidrográfica do Paraná, por exemplo, que reúne 32,1% da população nacional e abrange os estados de SP, PR, MS, MG, GO, SC e DF, quase 70% da demanda por recursos hídricos divide-se entre a produção agrícola (42%) e industrial (27%). Indo além do que tenta transmitir a Globo, contudo, é bastante complicado relacionar esta produção com as mercadorias que usamos no dia a dia. Na verdade, mais do que sociedade brasileira consome de forma desigual, estamos tratando de produtos altamente intensivos em água que o país manda para fora de nossas fronteiras através das exportações.

Apesar de maduro, inserido na fase monopolista e no sistema imperialista mundial, o capitalismo brasileiro se desenvolve a partir do espaço subalterno que lhe cabe na divisão internacional do trabalho, o que se reflete na pauta de exportações do Brasil, dentre outras questões. De acordo com o Ministério da Agricultura, o país lidera o ranking dos maiores exportadores de carne bovina do mundo desde 2008 e as estatísticas apontam que a exportação continuará crescendo 2,15% ao ano, ao passo que a carne de aves crescerá a 3,64%. Ora, se 1 Kg de carne vermelha significa 15 mil litros de água, somente entre janeiro e setembro de 2014 o Brasil exportou 17.497.155.000.000 litros d’água contidos nas 1.166.477 toneladas de carne lançadas no mercado globalizado, conforme orgulhosamente revela a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC).

Também deve preocupar a expansão dos desertos verdes. Refiro-me às plantações industriais de eucaliptos que se espalham desde a região Sul até a Bahia, passando pelo corredor formado na região Sudeste. Apesar de voltada para interesses econômicos privados, este setor beneficia-se com o apoio financeiro do BNDES e com a anuência supostamente técnica do poder público em diversas esferas, que de maneira absurda classifica a atividade como reflorestamento. A monocultura de eucalipto é intensamente danosa à biodiversidade e requer enormes quantidades de água extraída dos lençóis freáticos. Segundo o documentário Cruzando o Deserto Verde, três fábricas da Aracruz Celulose consumiam 248.000 m³ de água diariamente, o suficiente para abastecer uma cidade com 2,5 milhões de habitantes. A Aracruz foi incorporada pela Votorantim Celulose e Papel (VCP), dando origem à Fibria, líder global no mercado de celulose. 98% da celulose produzida no Brasil é destinada à exportação, sendo que desse total a maior parte visa à produção de papel higiênico, fato emblemático quanto papel do Brasil no capitalismo mundial, literalmente.

Recentemente, as pressões do agronegócio representadas tanto na base do governo quanto na oposição resultaram na alteração do Código Florestal em 2012. Com isso, o caminho para a degradação ambiental ficou ainda mais fácil: redução das áreas de preservação permanente, diminuição das reservas legais, descentralização da administração e fiscalização ambiental, perdão de desmatadores, etc. A quem interessa o avanço desse modelo agropecuário baseado no latifúndio, na monocultura, no uso excessivo de agrotóxicos (venenos) e no mercado externo?! Mais cedo do que se esperava a natureza vem dando a resposta e, cada vez mais, um projeto político de transformações profundas no Brasil precisa encarar de frente a contradição entre as condições de vida e o bem estar da população versus os lucros irracionais da burguesia e seus serviçais no executivo, no parlamento e nos tribunais.

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Ideologia e Didática no ensino de Geografia

Em seu clássico intitulado “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra” Lacoste (1989) postula a existência de duas geografias, por assim dizer: uma Geografia dos Estados-maiores e uma Geografia dos professores. De acordo com o autor, a primeira teria origem antiga, enquanto saber sincrético percebido estrategicamente e aproveitado como instrumento de poder por minorias dirigentes. Já a segunda seria mais recente, surgida aproximadamente há um século, tornando-se um discurso ideológico que acaba por mascarar sua utilidade prática na conduta da guerra ou na organização do Estado.

Nesse sentido, seria impossível desvincular ideologia e didática. Mais interligadas do que possam parecer a primeira vista, essas duas questões centrais no ensino de Geografia adquirem uma íntima relação. No caso da chamada Geografia Tradicional, a apresentação da disciplina a partir do esquema Natureza – Homem – Economia (MOREIRA, 2006) é fundamental para estabelecer um modelo de explicação da realidade que afaste do seu campo de ação as contradições políticas e econômicas presentes na sociedade e no espaço.  A natureza é concebida como receptáculo para o homem demográfico – sem classes – e as atividades econômicas são encaradas sob um viés descritivo, a partir de inúmeras informações pouco ou nada relacionadas entre si.

Deste modo, o desafio hoje colocado aos professores de Geografia que buscam inserir-se numa perspectiva crítica passa justamente pelo questionamento a respeito conciliação entre novos conteúdos e velhos métodos. Devemos refletir sobre até que ponto a Geografia Tradicional foi ou não superada. Em diversos aspectos, ao contrário do que se tende a convencionar, ela parece muito presente. O currículo escolar de Geografia é hoje, sem dúvida, diferente de 40 anos atrás, bem como os livros didáticos e outros materiais pedagógicos. Mas e sua lógica de organização e a didática e ela subjacente: será que mudaram tanto? Esta questão vai muito além das opções individuais de cada docente e das especificidades da Geografia, envolvendo, na verdade, um conjunto de debates sobre a autonomia pedagógica, o processo de formação de professores, enfim, o próprio papel social da educação.

REFERÊNCIAS

LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 2 ed. Campinas, SP: Papirus, 1989.

MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006.

Metodologias ativas no ensino de Geografia

Ainda que as metodologias ativas possam ter grande importância para todo o conjunto de disciplinas escolares, importa refletir sobre seu significado específico em relação à Geografia. A Geografia Escolar tem uma origem eminentemente descritiva e fragmentária, estabelecendo no processo de ensino uma expressão enciclopedista. Desde pelo menos o final da década de 1960 vem sendo travados uma série de debates críticos a esse respeito, o que de modo geral tem contribuído para uma certa renovação da Geografia numa perspectiva crítica.

Entretanto, no que diz respeito ao cotidiano escolar, devemos questionar até que ponto a Geografia ensinada hoje se diferencia da Geografia ensinada há décadas atrás, sobretudo em termos de metodologia.Os conteúdos curriculares desta disciplina por vezes são distantes da realidade dos educandos, exigindo níveis consideráveis de abstração. Por outro lado, há elementos fundamentais para compreender o mundo atual que podem ser desenvolvidos a partir de conceitos trabalhados em Geografia. Nesse sentido, as metodologias ativas podem assumir um papel fundamental. De acordo com Berbel (2011, P. 25), “é recorrente entre, os estudiosos de Educação das últimas décadas, a ideia de que já não bastam informações para que crianças, jovens e adultos possam, com a contribuição da escola, participar de modo integrado e efetivo da vida em sociedade”.

Observa-se, portanto, a necessidade de promover situações didáticas que permitam construir os conceitos geográficos junto com os estudantes, em vez de apresentá-los prontos, devendo apenas ser memorizados. Trata-se de inverter a maneira clássica de ensinar Geografia: ao invés de começar pela definição acabada dos conceitos, estabelecer problematizações sobre casos concretos, sobre a própria realidade, na tentativa de recriar em diferentes formas e condições os movimentos pelos quais autores consagrados chegaram a formular suas ideias centrais.

A Geografia é conhecida como uma disciplina generalista e nisso residem tanto seus pontos fracos como seus pontos fortes. Por um lado, esse viés do conhecimento geográfico facilita a tendência ao conteudismo em detrimento da construção conceitual. Contudo, o caráter “generalista” da Geografia pode ser aproveitado numa perspectiva de totalidade, contribuindo para a análise da realidade a partir das ferramentas próprias da disciplina: espaço, território, região, paisagem, lugar, redes. Uma das maiores contribuições a esse respeito pode ser encontrada em Moreira (2013). A Geografia, aliada à utilização de metodologias ativas, tem grande potencial de inserir-se no contexto da formação integral, todavia esse processo deve ser pensado tendo em vista os sérios limites impostos pelos contextos escolares, sobretudo frente ao grave quadro estrutural das redes públicas de educação em geral.

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REFERÊNCIAS

BERBEL, N. A. N. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011.

MOREIRA, Ruy. Conceitos, Categorias e Princípios Lógicos Para o Método e o Ensino de Geografia. IN: Pensar e Ser em Geografia. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2013.