“Milagres” estatísticos na educação do RJ

O debate sobre Educação no Brasil vem se tornando escravo de números, estatísticas, rankings, índices. Nesse contexto o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – ganha papel de destaque. Este indicador foi criado em 2007 e  é calculado com base em dados sobre aprovação escolar e resultados em testes padronizados, como o Prova Brasil. A partir desses cálculos giram as preocupações governamentais em todas as esferas. Mas até que ponto o IDEB é capaz de refletir a realidade?

No RJ, o economista Wilson Risolia, que responde pela Secretaria de Estado de Educação, alardeia o salto dado pela rede fluminense no ranking nacional do IDEB, saindo de 26º em 2010 para 4º em 2014. Aparentemente, seria uma mudança radical. Quem recebe esta notícia sem conhecer a realidade do ensino público no RJ pode até ficar deslumbrado. Risolia cai nas graças do mundo empresarial: é o novo queridinho da mídia, apresentado como tecnocrata competente.

Contudo, para quem vive o cotidiano da educação na ponta como eu, que sou professor da rede estadual, trabalhei em três escolas do estado nos últimos dois anos e visitei dezenas de unidades para conversar com os profissionais, sinceramente, o que se vê melhorar é a capacidade do secretário em manipular os números e varrer os problemas para debaixo do tapete.

O Programa Autonomia, por exemplo, aplicado em parceria com a Fundação Roberto Marinho, retira alunos que não se enquadram na dinâmica das turmas regulares e os coloca para assistir TV com apenas um professor que fica responsável por todas as disciplinas. Portanto, o produto final, ou seja, as notas mais altas, esconde o processo que está por trás. Uma análise semelhante pode ser feita em relação à remuneração variável. Como os professores são mal remunerados e sabem que as bonificações dependem dos resultados, cria-se uma espécie de aprovação automática disfarçada.

Fala-se até mesmo em casos de divulgação de gabaritos antes nas provas externas. Ouvi relatos de que alunos considerados “fracos” são estimulados a faltar nos exames padronizados. Isto é, a meritocracia na educação combina com a fraude. Não sou o único que pensa assim. Leiam por exemplo o artigo de Mateus Prado, que não é nenhum sindicalista. E fica a pergunta: será que não é isso mesmo que querem os ditos gestores? Bater metas, aumentar índices, não importando como.

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